aos poucos e a lua tardava em aparecer. Uma ruiva, de altura mediana e personalidade incomum, deitava-se no alto de uma colina para começar a contar estrelas. De repente o céu já estava completamente negro a não ser pelas as estrelas que tentavam iluminá-lo. Mas a lua ainda não estava lá. Para aonde ela poderia ter ido?
-Ela sumiu! –exclamou a menina.
-Não sumiu. Apenas desistiu. –Respondeu uma das estrelas que constituíam o cenário.
-Desistiu do que, exatamente?
-Do mundo. Ele não merece o brilho da lua.
Um sorriso bobo tomava conta de sua feição e em sua mão esquerda estava um papel velho e amassado. Nele estava uma curta poesia do século XIX, ainda com o português arcaico e acentos inimagináveis em palavras esquisitas. Era engraçado como a palavra flores já conseguiu ser ainda mais bonita com um simples acento na letra “o”. Mas o seu pensamento foi um pouco mais próximo ao seu tempo. Foi para aquela noite nublada, quando a lua tentava fugir de seu próprio brilho escondendo-se nas nuvens que a cercavam. Seu pensamento foi para aquela escada empoeirada de metrô, onde dois jovens escreviam poesias e distribuíam-nas pelas ruas. Para completar o visual de boêmios franceses do século XX, usavam boinas e carregavam cigarros na ponta de suas bocas.
-Você quer ler? –Foi a primeira coisa, além da fumaça do cigarro, que saiu da boca do moreno, o que estava mais à esquerda. A jovem, ingênua na época, ergueu os cenhos e desistiu de ignorá-los. Aproximou-se dos rapazes e pediu para repetirem.
-Você quer ler? –Ainda confusa, a loira assentiu com a cabeça e sentou-se no primeiro degrau daquela sombria escada. De repente o mesmo garoto ergueu no ar uma página velha de um livro de poesias. A menina logo agarrou a folha e, com seus olhos famintos por poesia, leu, sorriu e viu na sua frente o famoso “amor de sua vida”.
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..
Mário Quintana
Junto do barulho do vento batendo nas folhas que cresciam nas árvores, outro som penetrava em seus ouvidos. Era uma melodia leve e passageira. Era o silêncio, percebeu a menina, murmurando palavras bonitas. E um pensamento no futuro surgia. E uma sensação de conforto e vazio crescia em seu peito. E uma lágrima e um sorriso surgiam em sua face.
Já era um barulho baixo e as folhas das árvores agora estavam maduras. Era o silêncio, percebeu a moça, aproximando-se do velho casebre. E um desconforto e medo arrepiava seus pêlos. E uma nostalgia surgia em sua mente. E mais uma lágrima surgiu em sua face, mas o sorriso nem ousou aparecer.
Agora o som era alto e oco e as folhas das árvores estavam espalhadas pelo chão. Era a morte, percebeu a idosa, batendo em sua porta. E uma sensação de tristeza e alívio tomaram conta de seu corpo. E um sorriso surgiu em sua face. Como a menina havia pedido, a morte estava com sua melhor veste e seu melhor sorriso. E sua vida inteira passou diante aos seus olhos, os quais logo se fecharam e nunca mais de abriram.
“Apenas em sonhos somos totalmente livres. Sempre foi assim e assim sempre será” - Sociedade dos Poetas Mortos